Paquetá, a ilha da paz no Rio de Janeiro

O Centro do Rio de Janeiro vai ficando para trás. As nuvens encobrem o sol que aparece aos poucos e tímido. O mormaço esquenta a pele e o termômetro marca 30 graus. A barca segue pelas águas da baía de Guanabara revelando detalhes que passam despercebido no dia a dia. As pilastras da ponte Rio-Niterói se aproximam e os carros que passam lá em cima parecem de brinquedo. A vento leve do mar desarruma os cabelos. Ainda faltam quarenta minutos até a Ilha de Paquetá, bairro carioca que dormiu no tempo preservando história e belezas naturais.

A dupla de amigas admira a paisagem revelada no trajeto da embarcação. As jovens cariocas moram em uma comunidade distante do Centro. Pegaram um ônibus para chegar até a Praça XV onde fica a estação das barcas e rumar até a Ilha de Paquetá. Conhecem o bairro apenas pelas descrições dadas por colegas que já foram até o local. A ideia das duas é passar um domingo diferente. Levaram sanduíches e bebidas em um cooler.

A viagem dura cerca de uma hora. A passagem da barca custa R$ 5,90. Durante o trajeto, ambulantes oferecem aos passageiros biscoitos de polvilho, amendoim, refrigerante, água e café. Uma jovem carrega nas mãos doces caseiros feitos por ela e a mãe. Custa R$ 4,00 e foram feitos para ajudar no custeio da faculdade de Artes Plásticas. Formada em Artes Cênicas, ela pretende terminar a nova graduação para lecionar em escolas públicas.

A barca atraca na ilha. A praça principal de Paquetá está movimentada. Nativos oferecem passeios em charretes elétricas. Por lá não há carros. O meio de transporte predominante é a bicicleta, que podem ser alugadas pelos turistas. A ilha não é grande. E um dia é possível conhece-la.

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Praia Grossa, próximo à estação das barcas

A impressão que tive foi de estar no cenário da novela Mulheres de Areia. O bairro, que se orgulha de apresentar casas onde foram gravadas novelas como Moreninha e Selva de Pedra, mistura o clima interiorano e caiçara. Um paraíso que pertence a cidade do Rio de Janeiro. Optamos em conhecer a ilha de charrete elétrica. O passeio de uma hora custa R$ 100. Foi aí que conhecemos o seu José.

Seu José chegou ao Rio de Janeiro há 46 anos. Saiu do interior de Pernambuco aos 18 anos em busca de uma vida melhor. O migrante nordestino foi logo para Paquetá, onde conseguiu emprego na construção civil. Simpático, ele nos contaria detalhes da ilha – e de sua vida – nos próximos 60 minutos.

A viagem de charrete elétrica tem início. Seu José se apresenta e diz que podemos parar quando quisermos para tirar fotos. Nativos da ilha passam e o cumprimenta. Por lá todo mundo se conhece. A população local é de apenas quatro mil pessoas. O migrante nordestino conta que depois de dois anos em Paquetá voltou ao nordeste para buscar a namorada. Casaram-se e tiveram três filhos. Foi com a ajuda dela que ele ‘venceu na vida’ ao custo de muito trabalho. A esposa faleceu. Depois de quatro anos conheceu a mulher com quem está até hoje e vive feliz.

Seu José nos apresenta o Cemitério dos Pássaros. Lá são enterradas as aves de estimação da população. Pequenas urnas onde repousam os corpinhos daqueles que viveram em gaiolas a alegrar as casas. A cantoria dos pássaros nos recebe e a paz é grande naquele local. Seguimos a viagem na charrete pelas ruas de terra e casas de muros baixos. Bicicletas estão estacionadas nas calçadas sem cadeados. A violência não deu as caras em Paquetá. Crianças brincam nas ruas e os vizinhos jogam cartas e conversam nas calçadas.

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Cemitério dos Pássaros

O feliz migrante nordestino nos apresenta as praias, a Pedra dos Namorados, o parque da ilha e as palmeiras que demarcam as antigas casas da família imperial. Chegando ao final da viagem de charrete demos de cara com a Maria Gorda, um exemplar de Baobá que reina numa rua próxima à estação das barcas. Diz a lenda que quem beija a árvore de origem africana tem grande sorte – eu beijei.

Almoçamos num antigo hotel em frente ao mar. Saboreamos um filezinho de peixe com a vista do paraíso tropical. A digestão foi feita numa caminhada na areia. Entramos no imenso parque de Paquetá e do alto do lugar que eles chamam de mirante registramos com o celular e os olhos a linda vista da baía de Guanabara.

Antes de o dia terminar e pegarmos a barca de volta encontramos seu José. Ele não nos viu, mas o admiramos de longe. Andava de braços dados com a esposa que se apoia em uma bengala. Na barraca de tapioca da pracinha tocava músicas antigas, o que tornou ainda mais nostálgica a nossa viagem no tempo pelo paraíso carioca.

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A bicicleta é o principal meio de transporte da ilha

 

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Nas ladeiras de Ouro Preto

Poderia ter ido de avião, mas tenho grande apreço pelas janelas dos ônibus. De dia aprecio as paisagens que margeiam as rodovias. À noite penso na vida olhando as estrelas que reinam no céu escuro. Foi dessa forma que segui para mais uma viagem, em meio ao barulho da chuva e o clarão dos raios no horizonte. Uma trilha sonora eclética e as freadas suaves do motorista embalaram as oito horas de percurso entre São Paulo a Belo Horizonte.

O ônibus entra na capital mineira. Se não tivesse passado algumas horas até ali diria que ainda estava em São Paulo tamanha semelhança com a terra da garoa. Semelhança que se acentuaria nas proximidades da rodoviária. Muitas pessoas em situação de rua, lixo e o cenário do submundo das grandes metrópoles. A chuva aperta e faz frio. Ainda não são oito horas da matina. Preciso de um café, um pão na chapa, fazer xixi, escovar os dentes e dar um jeito no cabelo antes de seguir viagem para o meu destino final: Ouro Preto.

Ajeito a mochila no bagageiro. Mais duas horas na estrada e terei a certeza se as pernas estão firmes para enfrentar as ladeiras de pedra sabão que me esperam. A paisagem cinza e de urbanização desenfreada vai ficando para trás. O verde das árvores e o vermelho da terra vai dominando o cenário. O ônibus sobe e desce. Lá longe avisto as casas nos morros, a primeira igreja, a rodoviária. Chegamos em Ouro Preto de Aleijadinho, de Tiradentes e dos universitários de vários sotaques.

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Foto: Daniela Origuela

O táxi é a opção mais rápida – e não barata – para ir até o hostel. Gasto quinze reais para um trajeto que, de Uber, pagaria sete reais (o valor mínimo). Aplicativos de transporte de passageiros não funcionam lá. O taxista é gentil. Dá dicas sobre a cidade e de como não escorregar em suas ladeiras íngremes. A impressão que tenho é de estar no cenário de uma novela de época. A vista é de encher os olhos. Natureza e história se misturam.

Goiabada com Queijo é o nome do prato mais conhecido da culinária mineira e é também o nome do hostel da Lidiane, que nos recebe com muito carinho. Nos dias em que lá ficamos nos sentimos como na casa aconchegante daquele parente do interior.

Sola do sapato verificada é hora de enfrentar a pedra sabão. O primeiro passeio em Ouro Preto foi em ladeiras molhadas. O medo de escorregar e sair rolando foi substituído pelo cuidado e o conhecimento do território. Logo estaríamos em nossa primeira parada: a Estrada Real Hamburgueria. Uma saborosa feijoada por 12 reais. A simpatia no atendimento, característica do povo mineiro, nos levaria outras vezes ao estabelecimento para experimentar açaí e tutu de feijão. A chuva e o cansaço atrapalharam os planos do sábado. Conhecemos poucas coisas, mas o suficiente para nos empolgar para o dia seguinte.

O domingo amanhece ensolarado. Tomamos o café da Lidiane e rumamos para a Estação de Trem, onde seguiríamos na composição turística da Vale para a cidade de Mariana, que fica ao lado de Ouro Preto. A passagem custa R$ 46 no vagão comum. Se escolher o panorâmico R$ 70. A dica é ir no vagão comum e sentar no lado direito – vai pagar barato e ter vista privilegiada. A viagem é uma volta ao passado. No caminho tem paisagens paradisíacas e um pedaço da história do Brasil em meio a sítios arqueológicos e minas desativadas.

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Vista da janela do Hostel Goiaba com Queijo

Mariana é mais simples que Ouro Preto. O centro histórico é pequeno, mas não menos belo e importante. Me chamou atenção os carros antigos usados pela população local. Voltei à infância na Zona Noroeste de Santos quando sentada no muro da casa da Rua Laurindo Chaves contava os veículos que passavam: Voyage, Escort, Monza, Gol, Passat, Brasília e Fusca. A volta para Ouro Preto foi feita de ônibus intermunicipal ao preço de R$ 4,30.

A tarde de domingo foi dedicada a conhecer igrejas, museus e a praça onde Tiradentes foi enforcado e teve a cabeça exposta. Pequenos calangos nos acompanharam em algumas visitas. Destaque para o rapaz argentino que vendia artesanato. Deixou para trás a vida em seu país natal para viver a andar pelo Brasil. Falamos sobre o que nos fazia felizes e o modo de vida que levamos. Certo ou errado? Divagamos por uns trinta minutos sobre a existência.

A viagem terminaria com uma ida ao Parque das Andorinhas. Lugar lindo e mágico. Dá para ir de ônibus municipal, mas pegamos um táxi para agilizarmos o percurso. Nada de sinal de celular. O silêncio é interrompido apenas pelo canto dos pássaros e a água que corre nas várias cachoeiras e riachos que há no local. O céu parece estar muito perto. A energia daquele lugar é maravilhosa. Fui embora com a promessa de voltar.

A despedida de Ouro Preto foi linda como ela. A lua grande e irradiante nos seguia na janela do ônibus. Estava feliz e nem me importei se estaria cansada após as mais de 12 horas de estrada de volta para casa. Esqueci de dizer no início do texto que perdi o ônibus da ida – tive que comprar outras passagens – e posso trocar os bilhetes. Ou seja: até breve!

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Cachoeira no caminho entre Ouro Preto e Mariana

 

PARQUE DAS ANDORINHAS

Pedra do Jacaré – Parque das Andorinhas – Ouro Preto 

 

Ocupa Brasília, 2017

Foi a primeira vez do Manoel. Manoel tem mais de 60 anos e ao lado do filho foi conhecer a capital do país. A primeira vez também do outro homem que janta ao lado. “Conheço Brasília da música do Renato Russo”. Restaurante na beira da rodovia lotado. Ônibus de todos os lados. Muita gente. Há fila para tudo, inclusive no banheiro, onde a funcionária do estabelecimento, abraçada ao rodo, fala da sua rotina. “Sou limpadora de banheiro. Limpo xixi, coco, sujeira. Minha função é deixar limpo”. Mãos secas, pé na estrada. Essa seria a primeira parada de outras duas, mais precárias, que teria até o destino final.

O sol surge lindo e imponente no horizonte. Reinaria absoluto até que a lua de volta surgisse no céu estrelado daquele dia histórico. Congestionamento. Ô abre alas que as caravanas vão passar. Os ônibus com placas de cidades do sul ao norte do país vão estacionando em frente ao grande estádio superfaturado alvo de investigação. Milhares de pessoas finalmente pisam na terra vermelha da cidade planejada. Há bandeiras, faixas e bolas gigantes de todos os tipos e cores. Até quem não gosta do outro se juntou. O clima é de festa. Festa com vários sotaques e odores que exalam das barracas de comida improvisadas em frente ao Manega. Pastel, cachorro quente, espetinho. “É cinco, senhora. Esse é 10”.

Tem discurso, tem foto, tem abraço, tem reencontro. Tem também o Leonardo, o jovem de 21 anos morador de Águas Lindas de Lindoia, cidade que fica a uma hora de Brasília. Foi protestar e vender viseira, as mesmas que garante um trocado no final do mês com o trabalho de camelô na capital federal. Tem a Guiomar, de 49 anos. Desempregada assim como o marido, a migrante nordestina que há 42 anos foi para o planalto central em busca de uma vida melhor, fez uns adereços para vender no ato. “A gente tem que se virar como pode. Três filhos para criar. A vida não tá facil não”. Tem ainda a dona Cicera, 73 anos, ao lado das amigas. A alagoana mora em Santos e foi casada com um petroleiro. Está presente em todas as lutas do sindicato. “Vim lutar pelo direito de todos e principalmente de pensionista como eu que ganha pouco”.

Organizadamente os grupos tomam a avenida que finda no Congresso Nacional. A caminhada até onde os homens com mandato decidem a vida do povo é grande. O sol está forte assim como os coros. O clima é de festa. Mario de Jesus está no meio. Empurra um carrinho com dois isopores. Levou açai da sua terra para vender na manifestação. Um dia dentro do onibus para chegar a Brasilia. O funcionário da Universidade Federal do Pará foi protestar e levar o sabor original do seu estado. “Açai com fruta? Só no sul, moça. Aqui é com farinha. Cinco reais. Vai um?”. Mais à frente a marcha encontra o seu Cícero. O pernambucano e seus dois cartazes chamam atenção do público que tira fotos. Quem chamou atenção também foi o homem vestido de preto e máscara. Michel Monstro dizia a inscrição colada em seu peito.

Esplanada dos ministérios. De cima do viaduto dá para ver a longa avenida tomada de gente. São mais de 100 mil com certeza. “Fora, Temer. Fora, Temer”, gritam. Lá na frente a coisa começa a complicar. A policia está a postos. Decidiu que a multidão não chegaria perto da rampa do planalto e nem nas grades de proteçao instaladas pela segurança. O clima fica tenso. Não tem conversa. É bomba. Não há registro de janelas quebradas ou qualquer coisa quebrada. O som vem das bombas e das informações que a repressão estava grande lá na frente. Correria. Cavalaria. Helicópteros. A fumaça do gás se espalha, mas não é suficiente para espantar quem decidiu resistir. Alguns assistem sem acreditar no que estão vendo. A maioria resiste com panos no rosto e vinagre – para quem tinha. Barricadas com fogo do lado direito. Pixo de protesto na parede. Vidros estilhaçados. Fogo na janela do terreo de um predio dos ministérios. A câmera do celular, quase morto pela bateria que não ajuda, registra um pouco da ação. A polícia chega com a bala de borracha. Soube-se depois que teve bala de pistola e uma pessoa ferida por ela. Há outros feridos. Praça de guerra montada para proteger o Congresso Nacional.

Bateria acabou de vez. Depois de ir e voltar algumas vezes do meio das bombas, a grama vira refúgio. Ela me apresentou os aposentados do ABC, a professora de Santa Catarina, os professores do Maranhão, o cientista solitário que pedia apoio para que o Brasil investisse em pesquisa. Chegam estudantes da Universidade Federal da Bahia. Animados e arretados comentam a primeira vez deles em Brasília e em protestos. A primeira vez a gente nunca esquece. Os olhos deles brilham, assim como de outros milhares de jovens que seguraram a onda da repressão. As bombas não param. Uma da meninas pede para que o colega não poste fotos do ato no Facebook. “Lá na minha cidade o prefeito queria desenterrar os corpos do cemitério e jogar em algum lugar porque não quer construir outro cemitério. Uma mulher denunciou na internet. Foi perseguida junto com os filhos. Tenho muito medo”.

A multidão faz o caminho de volta para os ônibus. O astro rei começa a se despedir ainda forte no horizonte. Dá para ouvir o som das bombas. O dia foi longo e tenso, mas o cansaço foi substituído pela sensação de dever cumprido. As notícias de que tudo o que aconteceu foi baderna não ofuscam a manifestação popular que os olhos de quem estava lá viu. Os olhos falam mais que imagens editadas e 100 mil depoimentos dizem mais que notas oficiais.

Caminho de volta. Ônibus alegre com uma trilha sonora alternativa – será lembrada tanto quanto as cenas do dia 24 de maio de 2017. Na primeira parada do retorno, a última personagem. A sexagenária Tereza. Atua nos movimentos sociais da capital paulista há 30 anos. Falou das lutas e das conquistas que tiveram. “O que fizeram hoje não desanima. Dá mais força. Nunca foi fácil e agora então que não será. São 30 anos lutando por dias melhores e assim será até eu morrer”.Capture+_2017-05-25-20-13-27-1

Lucia, a cantora vicentina de Cubatão

Há 20 anos, a vicentina Lucia Maria Silva trocou Teresina, capital do Piauí, por Cubatão. Já trabalhou como garçonete, auxiliar de cozinha e atualmente vende picolés na principal avenida da cidade, a Nove de Abril. Entre uma buzina e outra, para chamar atenção dos clientes, ela canta. Tem um repertório variado de canções e o sonho de ser reconhecida pela sua voz e música.

“Faço curso de teatro, música e voz (canto coral). Também alegro a cidade. Cantar é um dom que eu tenho. Eu não acho que canto tão bem, mas o pessoal diz que gosta muito da minha voz. Sempre pedem para eu cantar. Eu canto todo tipo de música”, disse Lucia, que ressaltou ser conhecida como Lucia Cantora.

A moradora do Bolsão 9 vende picolés na Avenida Nove de Abril, a principal de Cubatão, há três anos. Sua origem remete à característica do povo cubatense, que agrega principalmente a cultura nordestina e migrante. Ela nasceu em São Vicente. Sua mãe é do Maranhão e o pai do Piauí. “Estou em Cubatão há 20 anos. Cubatão é uma mãe com o coração muito grande. Os governantes deveriam mais atenção a ela. Sou paulista, meu pai é piauiense e minha mãe maranhense. Uma mistura grande”.

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Foto: Rodrigo Montaldi

Lucia Cantora disse que canta sempre que o povo pede. Canta para amigos e na porta de estabelecimentos comerciais para desconhecidos. Seu sonho é gravar um CD e ser reconhecida pela voz. “Não vou ser como os artistas que depois da fama esquecem dos fãs. Tem que manter a humildade”, afirmou.

Foi na Praça dos Emancipadores, em frente ao Paço Municipal, que conhecemos a Lucia. Terminava mais um dia de venda de picolés aos servidores municipais em greve. Pedimos que mostrasse o seu grande dom: a voz. Timidamente pegou a buzina, que utiliza para vender os gelados, e a fez de microfone. Cantou uma canção de Whitney Houston e outra da Paula Fernandes. Chamou atenção de quem só a conhecia apenas como ‘a moça do picolé’.

Rolê carioca

O dia ainda está clareando, mas já é possível ver as habitações aglomeradas nos morros. Paredes coloridas e o rastro de pixo. Nos pontos de ônibus trabalhadores e ambulantes que dão início a labuta nas primeiras horas das manhã. Os guindastes e embarcações indicam a proximidade da região portuária. Estamos perto da rodoviária. Há 18 anos, última vez que fui ao Rio de Janeiro, o VLT, muito utilizado durante as Olimpíadas, ainda era algo pouco provável. Aquela região foi revitalizada, mas o cheiro de urina que entra pelas narinas, logo saímos do terminal rodoviário, continua o mesmo. O cenário muito lembra o Centro de Santos*.

No vai e vem de pessoas nossa missão é descobrir qual coletivo nos levaria até Botafogo. Fomos apenas com uma mochila e a certeza que íamos aproveitar o fim de semana. Não sabíamos como chegar aos lugares, mas “quem tem boca vai aonde quiser” – só não contávamos com um detalhe: a má vontade do carioca que trabalha com/para o público em dar informações. Se dependesse da atendente do terminal rodoviário, da cobradora e do taxista que encontramos pela frente teríamos voltado ao guichê da rodoviária para trocar a passagem e regressar imediatamente. Nos colocaram medo de andar nas ruas e deixaram aquela primeira impressão ruim que que quase nunca muda. Ainda viriam as atendentes da padaria, do restaurante, do bar. Educação mesmo e gentileza apenas do pessoal do hostel onde ficamos e dos motoristas do Uber que utilizamos – gatos e simpáticos.

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Praia de Ipanema vista da pedra do Arpoador

Em meio à falta de comunicação precisou dois gringos – os holandeses Iussi e Luca – aparecer para provar que quando se tem boa vontade nem a diferença de idioma é capaz de afastar o diálogo. Entre mímicas, portunhol e embromation nível hard nos entendemos e demos boas risadas pela Lapa. Apresentamos o feijão brasileiro para eles e eles nos apresentaram detalhes de sua terra, que abriga milhares de refugiados, sobretudo mulheres e crianças, dando-lhes condições de reiniciar a vida.

Foi ainda na Lapa, região que mistura a Santos de arquitetura histórica e das baladas da Rua XV de Novembro com a movimentação e árvores da Praça da República e da Rua Augusta, em Sampa, que conhecemos também Marcelo Oliveira, o Sorriso. Mora na rua há alguns anos. Fala fluente três idiomas, mas a garrafa de álcool que carrega no bolso e bebe dia e noite é o refúgio de algo que não conseguimos descobrir. Como ele há tantos outros espalhados naquela área. Muitos dependentes químicos e da prostituição.

Conhecemos mais outros gringos, que tão desinformados quanto nós queriam apenas chegar a algum lugar ou beber chá preto. Um casal de norte-americanos e outro londrino. Estrangeiros é o que não falta por lá. Tem todas as nacionalidades e idiomas. Conhecemos também, de vista, o rapaz negro que ganha a vida passeando com os cachorros de Copacabana; a babá que veste branco e anda com o filho da patroa, que está logo atrás, no calçadão de Ipanema, e os cinco meninos de Irajá que pegaram o metro depois de curtir uma praia. Carregavam na mochila salgadinhos, paçoca e bolachas que sobraram do dia à beira mar e foram degustadas enquanto o metrô os levavam de volta para a casa. Lembrei da molecadinha da Área Continental, que pega lotação aos domingos para ir à praia.

Andamos mais de cinco quilômetros, subimos mais de 200 degraus, paramos no pagode com funk (sim eu fui), não conseguimos ver o Cristo que estava escondido nas nuvens, subimos nas pedras do Arpoador, conhecemos parte de uma cidade que lembra muito a nossa – inclusive na desigualdade social – e nos fez se sentir em casa. A diferença é que lá a cidade é gigante e eles têm o sacolé e nós o chup-chup.

*A autora mora em São Vicente – primeira Vila do Brasil -, mas cresceu e trabalha em Santos, litoral de São Paulo.