Ocupa Brasília, 2017

Foi a primeira vez do Manoel. Manoel tem mais de 60 anos e ao lado do filho foi conhecer a capital do país. A primeira vez também do outro homem que janta ao lado. “Conheço Brasília da música do Renato Russo”. Restaurante na beira da rodovia lotado. Ônibus de todos os lados. Muita gente. Há fila para tudo, inclusive no banheiro, onde a funcionária do estabelecimento, abraçada ao rodo, fala da sua rotina. “Sou limpadora de banheiro. Limpo xixi, coco, sujeira. Minha função é deixar limpo”. Mãos secas, pé na estrada. Essa seria a primeira parada de outras duas, mais precárias, que teria até o destino final.

O sol surge lindo e imponente no horizonte. Reinaria absoluto até que a lua de volta surgisse no céu estrelado daquele dia histórico. Congestionamento. Ô abre alas que as caravanas vão passar. Os ônibus com placas de cidades do sul ao norte do país vão estacionando em frente ao grande estádio superfaturado alvo de investigação. Milhares de pessoas finalmente pisam na terra vermelha da cidade planejada. Há bandeiras, faixas e bolas gigantes de todos os tipos e cores. Até quem não gosta do outro se juntou. O clima é de festa. Festa com vários sotaques e odores que exalam das barracas de comida improvisadas em frente ao Manega. Pastel, cachorro quente, espetinho. “É cinco, senhora. Esse é 10”.

Tem discurso, tem foto, tem abraço, tem reencontro. Tem também o Leonardo, o jovem de 21 anos morador de Águas Lindas de Lindoia, cidade que fica a uma hora de Brasília. Foi protestar e vender viseira, as mesmas que garante um trocado no final do mês com o trabalho de camelô na capital federal. Tem a Guiomar, de 49 anos. Desempregada assim como o marido, a migrante nordestina que há 42 anos foi para o planalto central em busca de uma vida melhor, fez uns adereços para vender no ato. “A gente tem que se virar como pode. Três filhos para criar. A vida não tá facil não”. Tem ainda a dona Cicera, 73 anos, ao lado das amigas. A alagoana mora em Santos e foi casada com um petroleiro. Está presente em todas as lutas do sindicato. “Vim lutar pelo direito de todos e principalmente de pensionista como eu que ganha pouco”.

Organizadamente os grupos tomam a avenida que finda no Congresso Nacional. A caminhada até onde os homens com mandato decidem a vida do povo é grande. O sol está forte assim como os coros. O clima é de festa. Mario de Jesus está no meio. Empurra um carrinho com dois isopores. Levou açai da sua terra para vender na manifestação. Um dia dentro do onibus para chegar a Brasilia. O funcionário da Universidade Federal do Pará foi protestar e levar o sabor original do seu estado. “Açai com fruta? Só no sul, moça. Aqui é com farinha. Cinco reais. Vai um?”. Mais à frente a marcha encontra o seu Cícero. O pernambucano e seus dois cartazes chamam atenção do público que tira fotos. Quem chamou atenção também foi o homem vestido de preto e máscara. Michel Monstro dizia a inscrição colada em seu peito.

Esplanada dos ministérios. De cima do viaduto dá para ver a longa avenida tomada de gente. São mais de 100 mil com certeza. “Fora, Temer. Fora, Temer”, gritam. Lá na frente a coisa começa a complicar. A policia está a postos. Decidiu que a multidão não chegaria perto da rampa do planalto e nem nas grades de proteçao instaladas pela segurança. O clima fica tenso. Não tem conversa. É bomba. Não há registro de janelas quebradas ou qualquer coisa quebrada. O som vem das bombas e das informações que a repressão estava grande lá na frente. Correria. Cavalaria. Helicópteros. A fumaça do gás se espalha, mas não é suficiente para espantar quem decidiu resistir. Alguns assistem sem acreditar no que estão vendo. A maioria resiste com panos no rosto e vinagre – para quem tinha. Barricadas com fogo do lado direito. Pixo de protesto na parede. Vidros estilhaçados. Fogo na janela do terreo de um predio dos ministérios. A câmera do celular, quase morto pela bateria que não ajuda, registra um pouco da ação. A polícia chega com a bala de borracha. Soube-se depois que teve bala de pistola e uma pessoa ferida por ela. Há outros feridos. Praça de guerra montada para proteger o Congresso Nacional.

Bateria acabou de vez. Depois de ir e voltar algumas vezes do meio das bombas, a grama vira refúgio. Ela me apresentou os aposentados do ABC, a professora de Santa Catarina, os professores do Maranhão, o cientista solitário que pedia apoio para que o Brasil investisse em pesquisa. Chegam estudantes da Universidade Federal da Bahia. Animados e arretados comentam a primeira vez deles em Brasília e em protestos. A primeira vez a gente nunca esquece. Os olhos deles brilham, assim como de outros milhares de jovens que seguraram a onda da repressão. As bombas não param. Uma da meninas pede para que o colega não poste fotos do ato no Facebook. “Lá na minha cidade o prefeito queria desenterrar os corpos do cemitério e jogar em algum lugar porque não quer construir outro cemitério. Uma mulher denunciou na internet. Foi perseguida junto com os filhos. Tenho muito medo”.

A multidão faz o caminho de volta para os ônibus. O astro rei começa a se despedir ainda forte no horizonte. Dá para ouvir o som das bombas. O dia foi longo e tenso, mas o cansaço foi substituído pela sensação de dever cumprido. As notícias de que tudo o que aconteceu foi baderna não ofuscam a manifestação popular que os olhos de quem estava lá viu. Os olhos falam mais que imagens editadas e 100 mil depoimentos dizem mais que notas oficiais.

Caminho de volta. Ônibus alegre com uma trilha sonora alternativa – será lembrada tanto quanto as cenas do dia 24 de maio de 2017. Na primeira parada do retorno, a última personagem. A sexagenária Tereza. Atua nos movimentos sociais da capital paulista há 30 anos. Falou das lutas e das conquistas que tiveram. “O que fizeram hoje não desanima. Dá mais força. Nunca foi fácil e agora então que não será. São 30 anos lutando por dias melhores e assim será até eu morrer”.Capture+_2017-05-25-20-13-27-1

Lucia, a cantora vicentina de Cubatão

Há 20 anos, a vicentina Lucia Maria Silva trocou Teresina, capital do Piauí, por Cubatão. Já trabalhou como garçonete, auxiliar de cozinha e atualmente vende picolés na principal avenida da cidade, a Nove de Abril. Entre uma buzina e outra, para chamar atenção dos clientes, ela canta. Tem um repertório variado de canções e o sonho de ser reconhecida pela sua voz e música.

“Faço curso de teatro, música e voz (canto coral). Também alegro a cidade. Cantar é um dom que eu tenho. Eu não acho que canto tão bem, mas o pessoal diz que gosta muito da minha voz. Sempre pedem para eu cantar. Eu canto todo tipo de música”, disse Lucia, que ressaltou ser conhecida como Lucia Cantora.

A moradora do Bolsão 9 vende picolés na Avenida Nove de Abril, a principal de Cubatão, há três anos. Sua origem remete à característica do povo cubatense, que agrega principalmente a cultura nordestina e migrante. Ela nasceu em São Vicente. Sua mãe é do Maranhão e o pai do Piauí. “Estou em Cubatão há 20 anos. Cubatão é uma mãe com o coração muito grande. Os governantes deveriam mais atenção a ela. Sou paulista, meu pai é piauiense e minha mãe maranhense. Uma mistura grande”.

cantora - Cópia

Foto: Rodrigo Montaldi

Lucia Cantora disse que canta sempre que o povo pede. Canta para amigos e na porta de estabelecimentos comerciais para desconhecidos. Seu sonho é gravar um CD e ser reconhecida pela voz. “Não vou ser como os artistas que depois da fama esquecem dos fãs. Tem que manter a humildade”, afirmou.

Foi na Praça dos Emancipadores, em frente ao Paço Municipal, que conhecemos a Lucia. Terminava mais um dia de venda de picolés aos servidores municipais em greve. Pedimos que mostrasse o seu grande dom: a voz. Timidamente pegou a buzina, que utiliza para vender os gelados, e a fez de microfone. Cantou uma canção de Whitney Houston e outra da Paula Fernandes. Chamou atenção de quem só a conhecia apenas como ‘a moça do picolé’.

Rolê carioca

O dia ainda está clareando, mas já é possível ver as habitações aglomeradas nos morros. Paredes coloridas e o rastro de pixo. Nos pontos de ônibus trabalhadores e ambulantes que dão início a labuta nas primeiras horas das manhã. Os guindastes e embarcações indicam a proximidade da região portuária. Estamos perto da rodoviária. Há 18 anos, última vez que fui ao Rio de Janeiro, o VLT, muito utilizado durante as Olimpíadas, ainda era algo pouco provável. Aquela região foi revitalizada, mas o cheiro de urina que entra pelas narinas, logo saímos do terminal rodoviário, continua o mesmo. O cenário muito lembra o Centro de Santos*.

No vai e vem de pessoas nossa missão é descobrir qual coletivo nos levaria até Botafogo. Fomos apenas com uma mochila e a certeza que íamos aproveitar o fim de semana. Não sabíamos como chegar aos lugares, mas “quem tem boca vai aonde quiser” – só não contávamos com um detalhe: a má vontade do carioca que trabalha com/para o público em dar informações. Se dependesse da atendente do terminal rodoviário, da cobradora e do taxista que encontramos pela frente teríamos voltado ao guichê da rodoviária para trocar a passagem e regressar imediatamente. Nos colocaram medo de andar nas ruas e deixaram aquela primeira impressão ruim que que quase nunca muda. Ainda viriam as atendentes da padaria, do restaurante, do bar. Educação mesmo e gentileza apenas do pessoal do hostel onde ficamos e dos motoristas do Uber que utilizamos – gatos e simpáticos.

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Praia de Ipanema vista da pedra do Arpoador

Em meio à falta de comunicação precisou dois gringos – os holandeses Iussi e Luca – aparecer para provar que quando se tem boa vontade nem a diferença de idioma é capaz de afastar o diálogo. Entre mímicas, portunhol e embromation nível hard nos entendemos e demos boas risadas pela Lapa. Apresentamos o feijão brasileiro para eles e eles nos apresentaram detalhes de sua terra, que abriga milhares de refugiados, sobretudo mulheres e crianças, dando-lhes condições de reiniciar a vida.

Foi ainda na Lapa, região que mistura a Santos de arquitetura histórica e das baladas da Rua XV de Novembro com a movimentação e árvores da Praça da República e da Rua Augusta, em Sampa, que conhecemos também Marcelo Oliveira, o Sorriso. Mora na rua há alguns anos. Fala fluente três idiomas, mas a garrafa de álcool que carrega no bolso e bebe dia e noite é o refúgio de algo que não conseguimos descobrir. Como ele há tantos outros espalhados naquela área. Muitos dependentes químicos e da prostituição.

Conhecemos mais outros gringos, que tão desinformados quanto nós queriam apenas chegar a algum lugar ou beber chá preto. Um casal de norte-americanos e outro londrino. Estrangeiros é o que não falta por lá. Tem todas as nacionalidades e idiomas. Conhecemos também, de vista, o rapaz negro que ganha a vida passeando com os cachorros de Copacabana; a babá que veste branco e anda com o filho da patroa, que está logo atrás, no calçadão de Ipanema, e os cinco meninos de Irajá que pegaram o metro depois de curtir uma praia. Carregavam na mochila salgadinhos, paçoca e bolachas que sobraram do dia à beira mar e foram degustadas enquanto o metrô os levavam de volta para a casa. Lembrei da molecadinha da Área Continental, que pega lotação aos domingos para ir à praia.

Andamos mais de cinco quilômetros, subimos mais de 200 degraus, paramos no pagode com funk (sim eu fui), não conseguimos ver o Cristo que estava escondido nas nuvens, subimos nas pedras do Arpoador, conhecemos parte de uma cidade que lembra muito a nossa – inclusive na desigualdade social – e nos fez se sentir em casa. A diferença é que lá a cidade é gigante e eles têm o sacolé e nós o chup-chup.

*A autora mora em São Vicente – primeira Vila do Brasil -, mas cresceu e trabalha em Santos, litoral de São Paulo. 

São Paulo, terra dos contrastes

O vento anuncia a chegada de mais um trem. Estação Jabaquara do Metrô. O horário não é de pico. Outras dez estações e duas baldeações viriam até o destino final. A cada parada o vagão vazio ficava mais cheio. Rostos, corpos e estilos diferentes. Olhos atentos no celular, em livros ou voltados à observação. São Paulo é o retrato da miscigenação e da diversidade que há no Brasil.

Céu límpido e temperatura amena. Saímos da estação Fradique Coutinho e fomos recebidos pelos raios de sol. Estamos em Pinheiros, bairro nobre paulistano. Nosso destino estaria a 15 minutos de caminhada dali. Cardápios nas portas dos vários restaurantes das ruas por onde passamos convidava-nos a almoçar. A calmaria daquela região, a arquitetura antiga dos grandes prédios e das casas sem quintal e porão instigam os olhos. Tem brechó e sapateiro. Prato feito e comida refinada. Tem cachorro São Bernardo voltando da Pet Shop. Tem eu achando tudo aquilo diferente da ‘São Paulo 25 de Março’.

‘Pode subir’, diz a atendente. Lá se vai a Giulia. Foi tentar a sorte em uma sessão de fotos. Tem o sonho de ser atriz e, como toda adolescente deste tempo, busca na internet as agências e oportunidades possíveis. A resposta do teste virá depois. Mas foi visível o desinteresse. Minha filha está acima do peso, tem os seios grandes, cabelo em transição e a cara de menina. Sua imagem destoa dos quadros das modelos pregados na parede branca. Sua imagem a tem causado problemas com o espelho e a autoestima – mas quem já teve 14 anos sabe o quanto é difícil lidar com esses dois. O padrão imposto pela sociedade é cruel, principalmente na adolescência.

Voltamos pelo mesmo caminho. Já era meio da tarde. Encontramos pela frente um Subway. Foi por lá que forramos o estômago antes de seguir para o outro lado da Terra da Garoa. Fradique Coutinho – Paulista – República seria a nossa próxima parada. Minha filha olha para alto prédio comercial e diz: “Parece o filme que vi dos Estados Unidos”. Mais alguns passos ela teria a certeza de que não estava em Miami.

Ambulantes, engraxates, dependentes químicos em abstinência e pessoas espalhadas pela praça conversando, lendo. Cada um na sua vibe, no seu mundo. O vai e vem de carros e ônibus não se compara ao visto um pouco antes em Pinheiros. Na região central tem ovo colorido, boteco, pão com mortadela, coxinha, culinária de rua, fast food, espetinho, panqueca, pipoca, churros, tem o que eu quiser comprar. Tem original e tem fake. Tem trabalhador de Call Center e artista de rua. Tem muitos negros que falam outros idiomas. Imigrantes sentados no largo trocando ideia. Uma mesa de ping pong de um lado e o ponto de ônibus cheio do outro. Tem bolivianos e sua arte. Tem pessoas em situação de rua espalhadas ou amontoadas com suas famílias em barracas. A mendicância na região do Teatro Municipal é grande e não me deixou passar aquele trecho sem deixar pelo caminho um lanche e um sorvete do MC Donalds.

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Registro do passeio. Visão à partir da Galeria do Rock

Entramos na Galeria do Rock. Para mim uma velha conhecida. Para a Giulia alguém a conhecer. Eu me amarrei nas camisetas. Ela nos chaveiros do Naruto. Fomos para o subsolo. Lá estão muitos salões especializados em cabelo afro. A loja em frente a galeria tocava Dr. Dre, Snoop Dog e Bob Marley. Ambulantes tentavam vender óculos, meias e cuecas. “Ei, moça”, chama a atendente de um salão. Olha para a Giulia, pega em seu cabelo e diz: “Que cachos lindos. Está em transição né?”. Abriu um sorriso e respondeu ‘sim’. A moça não havia reparado no tamanho do seu seio e nem no cabelo desarrumado. Ficou feliz.

Nossa despedida da capital foi na Estação do Anhangabaú lotada. Hora do rush. Pergunto à Giulia antes de descer a serra: “Gostou mais de onde fomos primeiro ou onde fomos por último?”. Ela: “Do jeito que a moça do salão me tratou”.

 

O homem do saco

O vidro de pimenta malagueta no armário causava medo. Era sempre lembrado quando um palavrão saía da boca. Lembro com riqueza de detalhes a ardência que ela causou no dia em que, sem querer, o palavrão saiu da boca. Filha da puta! Medo igual tinha também do homem do saco. Minha avó sabia o que era filha da puta – eu não – e fazia questão que eu soubesse que o homem do saco ia pegar se o caminho da rua tentasse achar.

O Tonhão, um vizinho que vivia embriagado, era para mim o homem do saco. Assim como o Sergio, um rapaz com problemas mentais que vivia no portão pedindo pão todos os dias pela manhã, e o carroceiro que proseava com a minha avó enquanto ela varria a calçada. O homem do saco era também a Cuca, do Sítio do Pica-pau Amarelo, e o Incrível Hulk, que rasgava a camisa e ficava verde. Tinha medo de todos eles. Mente de criança é fogo.

Cresci e conheci o sabor da pimenta e também a liberdade de falar palavrão. Um foda-se é libertador. Descobri que homem do saco era coisa da cabeça da minha avó e de um monte de mãe. Impor medo é mais fácil que explicar o mundo, as consequências dos atos e os riscos da desobediência. A vida é assim: nem sempre amor é pago com amor, plantou colheu, arriscou pagou para ver.

Imagem do dia - Morador de rua dormia coberto por papelão, na manhã de ontem, na Praça dos Andradas, no Centro de Santos crédito MATHEUS TAGÉ DL

Foto: Matheus Tagé

Dia desses me chamou atenção um homem que carregava dois sacos pretos. Olhava o relógio e o mar agitado. Parecia perdido no tempo. Hoje vi outro senhor com dois sacos pretos nas costas. Caminhava lentamente em uma rua do Centro de Santos com o olhar de quem está em outra dimensão. Perdido em seus pensamentos.

O homem do saco, que a minha avó tanto me fez temer, nada mais é do que a representação da insegurança. A dela com medo de me perder. Do Tonhão, que buscou na bebida forças para um problema difícil de resolver. Do Sérgio que era ‘doido’. Do carroceiro que não tinha emprego formal. Da Cuca vilã. Do Hulk que não sabe lidar com sentimentos. Do homem que carrega saco e olha para o mar. Do senhor que anda olhando para um ponto no meio do nada. Do morador de rua que me deu uma presilha e a mão no dia em que passei triste em sua frente. Das duas crianças que pediam dinheiro na calçada para matar a fome. Da senhora que não anda mais na rua com medo de assalto. A representação dos nossos medos.